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Consultório de Sexologia

Profª Drª Helena Barroqueiro

Consultório de Sexologia

Profª Drª Helena Barroqueiro

Homossexualidade escondida

Preciso da sua ajuda para esclarecimentos sobre homossexualidade.Tenho 45 anos, sou casado e tenho um filho. Tive a minha primeira relação com um menino, tinha 12 anos, sempre tive atracção pelo sexo masculino, casei com 21 anos, pensava que os meus desejos e pensamentos eram apenas fantasias malucas.

Vivo num eterno conflito comigo mesmo. Às vezes penso que vou explodir, tenho desejos fortes incontroláveis, já pensei em me assumir, mas ao mesmo tempo tenho muito medo em tomar uma decisão precipitada. Uma vez fui a um sexólogo para tirar dúvidas, e ele disse-me que eu não tinha jeito de gay, e que não devia me assumir como tal.

Tudo para que se relaciona com homossexualidade me atrai, parece um imã, como fico envolvido com esses assuntos. E sempre tenho desejos homossexuais, lá no fundo sei que sou gay, posso não ter coragem de assumir, mas sei que sou.
abraços.

 

Roberto

 
Caro Roberto,
 
Não sei se o poderei esclarecer sobre a homossexualidade, pois é uma coisa que faz parte do ser humano, sempre fez e é muito complexa.
Tente ler livros, procurar associações na internet (http://portugalgay.pt) e sítios onde possa conhecer pessoas homossexuais, que o poderão esclarecer melhor do que eu e ajudá-lo a passar pelos momentos certamente confusos e difíceis por que está a passar. Há Associações como a ILGA-Portugal, As Panteras Rosa, A nao te prives, a Rede Ex-aequo...entre outras.
O desejo, a fantasia, a atracção e os comportamentos entre pessoas do mesmo sexo são dimensões da nossa sexualidade difíceis de controlar, de ignorar apenas pela vontade de querer conformar-se, como bem sabe. Aliás, quanto mais nos esforçamos por esconder um segredo, mais vemos esse segredo por toda a parte – como o leitor descreve. Isso pode deixá-lo extenuado e frustrado, pois contrariar as nossas emoções e sentimentos é muito duro. Penso que o leitor faz isso por causa da homofobia, ou seja, das emoções negativas que algumas pessoas têm em relação a questões do mesmo sexo e, muitas vezes, a própria sociedade, quando encara os homossexuais como inferiores aos heterossexuais. Mas hoje em dia sabemos que a homossexualidade é perfeitamente normal, não é doença e, em alguns países, atingiu-se mesmo a igualdade de direitos (casamento, adopção, etc) com a heterossexualidade. Não deixe que esta discriminação e estigmatização se instalem em si, negando os seus sentimentos (bem mais importantes que qualquer impressão de um sexólogo) e sentindo-se como que inferior aos heterossexuais – a chamada homofobia internalizada. Há terapias adequadas a este processo de desenvolvimento pessoal e se pedir ajuda a um especialista, tente fazer com alguém que saiba de questões lésbicas, gay, bissexuais ou transsexuais. Nem todos os profissionais o podem acompanhar no seu processo.
Lembre-se que quando tiver relações sexuais com outros homens, deve utilizar sempre preservativo, pois há algumas práticas (como o sexo anal, que não tem necessariamente de fazer) que são mais infecciosas no que toca ao VIH/SIDA. Proteja-se a si mesmo na descoberta que pode ser difícil, mas pode trazer-lhe também uma satisfação grande com a sua sexualidade.
Boa sorte nesse percurso.

Comportamentos sexuais e Infecção pelo VIH em Portugal

                                              

O Instituto de Ciências Sociais apresentou no dia 6 de Maio os resultados do inquérito Comportamentos Sexuais e VIH/SIDA – uma encomenda da Coordenação Nacional Para a Infecção Pelo VIH/SIDA de um estudo que analisasse a sexualidade portuguesa. A equipa de foi coordenada por Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira e integrou outros investigadores como Duarte Vilar, Raquel Lucas ou Sofia Aboim, que se debruçaram em áreas mais específicas, como as práticas e as representações sexuais, a saúde sexual e reprodutiva, os indicadores do risco ou as identidades e orientações sexuais.

O inquérito foi respondido por 3625 portugueses (1860 mulheres e 1775 homens), com idades dos 16 aos 65 anos, sendo uma amostra representativa de Portugal continental, com Lisboa um pouco mais representada, por ter uma diversidade urbana maior.

As diferenças de género foram acentuadas: homens e mulheres não vivem a sua sexualidade da mesma maneira – nem têm de o fazer – mas aproximam-se cada vez mais, em comparação com outros estudos semelhantes em Portugal no passado. As gerações apresentam também diferenças inegáveis na sua vivência da sexualidade e, em algumas questões perguntadas, o nível de a escolaridade e de prática religiosa tinham um certo impacto na sexualidade.

Entre alguns resultados que vale a pena destacar, está a idade de iniciação sexual: para os homens situa-se nos 17 e para as mulheres nos 19, enquanto a motivação dos primeiros é a atracção e o desejo sexual, para elas é estar apaixonada. Ao longo da vida, os homens relatam ter mais parceiras sexuais que as mulheres, onde um terço delas se afirma monogâmica exclusiva (contra 9% dos homens).

A saúde sexual do casal mostra-nos que o homem tem mais interesse (um terço das mulheres não o tem) uma satisfação com a frequência das relações sexuais maior nas mulheres que nos homens (69.5% delas “está bem assim”, mas apenas 56% deles); no entanto, os homens sentem sempre prazer em 65.5% dos casos e apenas 34% das mulheres, ao que se acrescenta ainda que elas demonstram dificuldades em atingir o orgasmo em 24% e dores durante a penetração em 18%. No sexo dos homens 22% consideram-nos rápido demais, 9.5% têm problemas em manter a erecção e 9% demoram muito ou nem chegam a ejacular – notando-se no geral mais ansiedade.

No que toca ao VIH/SIDA e à utilização de preservativo como protecção de infecções sexualmente transmissíveis é superior no grupo de idades maiores de 20 anos, enquanto que abaixo dos 20 e acima dos 50 a utilização é bem menor – aumentando no geral com o maior número de parceiros sexuais. Os homossexuais utilizam-no mais que os heterossexuais, apesar da subida de novos casos por transmissão heterossexual.

A realização do teste ao VIH/SIDA foi de 44%, mas as razões não são tanto por se ter tido comportamentos pessoais de risco ou pelo parceiro ter tido (apenas 7.6%), mas sim porque se fez exame médico geral (44%), por gravidez (17.8%).

Nas questões de orientação sexual destaca-se que as práticas sexuais não heterossexuais são mais alargadas que as identidades, ou seja, a auto-identificação como gay, homossexual, lésbica ou bissexual – o que pode ter implicações na prevenção focada em grupos específicos. As experiencias não heterossexuais surgem em 5.2% dos homens e 6.3% das mulheres, um pouco abaixo de outros estudos realizados em amostrar representativas de Portugal; embora as atracções pelo mesmo sexo surjam em maior número. No que toca às identidades, 0.7% assumem a identidade de homossexuais e, em maior número de bissexuais (1.5%).

Ficamos à espera da apresentação mais detalhada destes dados para podermos perceber melhor os detalhes da evolução e das diferenças entre homens, mulheres e casais heterossexuais e homossexuais, dos seus comportamentos e dos riscos que tomam nos seus amores.